quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Obsessão


    Ela observou enquanto o Sol se escondia sob um manto dourado. Algumas nuvens se aproximavam, mas isso não era incomum. Era sempre uma noite fria depois de um dia quente. Era um ciclo, era engraçado como tudo seguia um ciclo. Como as coisas eram sempre iguais e como as coisas ainda podiam estar iguais quando dentro dela estava tudo perdido.
    Ela olhou pra baixo, observou o mar quebrando nas pedras. O modo como ele pouco a pouco ficava agitado. Imaginou como seria se pulasse. Não pensou na dor, ou na morte, ou no que estaria deixando para trás. Só pensou nele, se sentiria dor ou saudade. Se a salvaria. Ele sempre a salvava, até quando não precisava. Mas agora... agora ele não estava ali, quando ela mais precisava ele não ia estar lá para salvá-la. 
   A dor era tão forte que chegava a ser física. Ela não suportaria sem ele. Se arriscou a dar mais uma olhada para baixo. Era bem alto da onde estava. Uma paisagem quase surreal. Agora, já noite, o mar atingiu uma tonalidade azul escuro. Quanto tempo ela estava parada lá sonhando acordada? Quanto tempo perdida em memórias ou em súplicas internas de que tudo fosse diferente? Não, não ia pensar... não ia tentar.Pensou no único modo que chegaria até ele, ele não a abandonaria. Nunca a abandonaria. Sentiu o vento, e o barulho mudo das árvores... não mandava mais em seu corpo ou em sua mente. Se sentia parte da natureza... estava tudo dentro dela, Sentiu as dores a empurrando pra baixo, se lembrou do seu sorriso e como tudo nele era tão místico. Tão perfeito... Ela gostaria de estar ali com ele, mas não estava. O que ele diria se a visse parada ali, daquela forma? Se permitiu rir... é tudo por você, pensou. Se sentiu leve, deu uma última olhada em volta. Sentiu a brisa, o abraço... o único conforto. E se lembrou dos seus braços e de como ela se sentia segura quando ele a abraçava. Mas ele não estava lá.
     Abriu os braços lentamente, imaginou como ficaria romântica essa cena dentro de um filme, e de como choraria tomando as dores da mocinha. Agora ela era a mocinha e ela não sentia dor. Ela já não sentia nada e queria manter tudo como estava. Antes que a dor voltasse, que as lágrimas caíssem e que ela perdesse a coragem. Antes que os pensamentos retornassem e a paz fosse embora. Já não tinha peso. Flutuava junto com seus pensamentos. Olhou as estrelas e em como elas se tornavam pequenos pontinhos brilhantes por causa da distância. A distância... tudo era distância. Então, sentiu o vento nas suas costas, sentiu a expectativa de tudo a sua volta, se deixou levar. Não tinha mais chão, ou céu. Não existia mais limites... ela voava. Ela era livre e voava. Sentiu o ar gelado, a confirmação do que tinha acabado de fazer. Seus olhos estavam bem fechados, então ela lembrou da primeira vez que foi na montanha russa. Da voz da sua mãe, Da voz dele, do modo como pronunciava o seu nome. Se lembrou do primeiro beijo e de como a sensação era parecida com a que sentia agora. Não existiam limites, era livre... Se lembrou das cores, da música. Se lembrou das juras eternas e de como elas eram irônicas agora. Se lembrou do toque das mãos e de como eles se tornaram um só. Foi um baque. A água era gelada, mas ela já não se importava... Abriu os olhos para a escuridão que a esperava. Não se via nada no mar. Azul, seus olhos eram azuis... Os olhos dele eram azuis.   E o modo com ele a olhava tornava tudo a sua volta azul. Suas cores dependiam dele. E agora acabaram as cores, era tudo escuro. A falta de oxigênio a incomodava, queria respirar. Precisava respirar... Precisava respirar ELE. Se sentiu sendo arrastada, percebeu quando sua cabeça se chocou com alguma coisa dura. Não lutava para manter a consciência. Pouco a pouco o pensamento ia sumindo, as dores. As luzes do seu mundo interior foram se apagando. De todas as lembranças só restaram uma. A de seu salvador, seus olhos, seu sorriso. Ele a salvaria, ele a salvaria...



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