Baseado em história real, histórias reais.
Àquelas de todas as meninas, todos os meninos que em qualquer momento de sua vida se sentiram bobos e entregues, vulneráveis demais para se sentirem bem e mesmo assim,
flutando no seu próprio mundo.
- Você está muito bonita, sabia?
Sorri. E como sempre, não tive reação.. nem resposta. Tentei reagir como se recebesse aquele tipo de elogio todos os dias. E eu recebia, mas não dele.
- Ah, obrigada ! - Se eu fosse do tipo de garota que fica vermelha, esse seria o momento em que eu ficaria. Por sorte ele não podia sentir o meu rosto pegando fogo. Por sorte.
- Haha - ele riu - você tinha que ver a sua cara.
- Hã ? - perguntei - Por quê ?
- Você fez uma cara engraçada, quando te elogiei. Uma cara diferente..
- Ah! - Cheguei a conclusão de que não tinha como, de alguma forma, ele não perceber. Se meu rosto não estava, a minha respiração devia estar vermelha, o meu olho, o meu sorriso. Alguma coisa entregava o meu constragimento, e eu não conseguia evitar.
Eu só não sei o que me puxava tanto pra ele e me fazia ficar desse modo, tão...desconcertada. O que me fazia ser tão diferente e tão inconstante nos meus sentimentos. O que me fazia adorar estar perto dele e odiar adorar, como se fosse algum erro. Qual erro? Depender, era essa a palavra. Eu odiava saber, mesmo que só pra mim, que dependia internamente de alguém sem saber se essa pessoa dependia de mim. E em todas as histórias perfeitas eu adoraria internamente, mas seria adorada interna e externamente, sem limites. O amor compulsivo, doentio e deliciosamente incontrolável iria vir do lado de lá e não de mim, logo eu, sempre tão controlada em tudo. Sempre com as rédeas. E olha só, onde estou agora. Quem me reconheceria.
- Bem, eu tenho que ir... está tarde e eu já passei do horário prometido. Estou bem atrasada, vou acabar recebendo um esporro - ri nervosamente.
- Calma aí, Anne - então ele me puxou pra perto dele e eu senti enquanto a aproximação ia ficando perigosa, porque tudo passou a ser abstrato demais. tinha uma noite lenta, com pessoas a nossa volta, carros e barulho ao longe, sem nitidez, e tinha um chão sob os meus pés. Deus, tinha um chão sob os meus pés, como não consegui senti-lo? E mesmo assim, com todo um cenário. Só havia nós dois, Só procurávamos a nós, porque só encontraríamos em nós e tudo passou a ser infinito demais, porque o tempo passava e eu só consegui observar o quanto íamos ficando tão perto um do outro, muito perto até que eu me aproximei bruscamente e dei nele um abraço. Pronto! E ali tinha o cheiro dele, a textura da camisa, o cabelo dele. Tudo perto demais. Deus, eu nunca me livrava disso.
Me afastei, dei um sorriso bem iluminado do tipo que diz:" bem, é isso então... por aqui ficamos" e olhei pro lado rapidamente enquanto tomava fôlego para olhar novamente para ele, só uma pequena respiração mental enquanto criava a força necessária para encará-lo e fingir que me sentia extremamente confortável enquanto ele me fitava. Me preparei para a nova despedida, mais firme dessa vez o "agora ou nunca". Dei aquele pequeno indício de que iria me afastar, rumo a minha casa, dessa vez.
- É assim então? - seu sorriso torto, aquele que o deixa com cara de criança que apronta. Menininho arteiro, aquele que o deixa tão assustadoramente encantador - Não tenho direito nem a um... - e eu já sabia o que ia vir, porque internamente torcia para que viesse - Nem a um beijo? - Perguntou ele, com uma cara de expectativa de quem já sabe a resposta, mas quer avaliar qual vai ser a reação da pessoa do outro lado, de que modo vai ser essa resposta. E a julgar pela aparência divertida em seu rosto, deveria estar achando muito engraçada toda a minha confusão interna e só Deus sabe que cara eu devo ter feito.
Pode parecer bobo, mas a palavra "beijo" sendo usada por ele, naquele momento se tornou algo místico, algo muito nosso e eu dei uma leve estremecida, interna e imperceptivelmente, claro. Eu demoraria a perceber o que foi aquilo que senti, até chegar a essa conclusão. Uma estremecida interna. E na boca de mais ninguém, essa palavra se tornou tão correta e limpa. Porque ele sempre teria direito a um beijo e, mesmo assim, toda aquela cortesia e aquela aparente "dúvida" ainda tornava tudo mais gostoso.
Então eu ri, e olhei para o lado. Aquele ritual de sempre da força antes de olhá-lo e quando virei novamente para ele, ele me observava e ria, ele realmente deveria estar se divertindo muito, NOSSA !
E depois me puxou, aos poucos, como quem se certifica se tem autorização e eu sinto a sua mão quente na minha, e nem sei mais se somos dois adolescentes que se conheceram há algum tempo porque a minha mão já estava preparada para a dele, elas se completavam e eu fecho a minha mão em torno da sua, como quem faz isso há anos, de modo involuntário. E agora sim, a aproximação estava ficando perigosa porque eu já nem tenho a noção do que está a volta de mim ou do tempo, é tudo lento, programado pra ser perfeito. Enquanto vou me aproximando coloco minha mão direita no cabelo dele e sinto como tudo nele me soa tão meu e cada coisa a partir daí é natural. O carinho na parte detrás da cabeça dele, meus olhos se fechando involuntariamente, meu tato se apurando, se preparando para tudo que venha a seguir e a boca dele na minha, a princípio conhecendo o território, depois o dominando. E logo eu que sempre duvidei de tudo e fui exageradamente chata e racional, senti que não sabia de nada e que tudo, tudo estava além de mim, flutuando em algum lugar. Onde flutuam os melhores amores, os beijos, onde não existem horas e onde tudo, com ele, era absolutamente infinito.

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